19 fev 2010

Perfil: Ricardo Costaval e o voluntariado no Haiti

No último dia 10/02, Ricardo Costaval, conhecido pela comunidade do UniBH como professor do curso de Medicina, iniciou sem dúvida uma dos mais belos atos de solidariedade de sua vida.

Embarcando de BH rumo ao Haiti, o médico/docente estava muito próximo de conhecer uma realidade geopolítica devastada por fenômenos da natureza.

Optando por ajudar vítimas do terremoto de 12 de janeiro, como médico voluntário, Ricardo dá uma verdadeira lição – não aquela aprendida em sala de aula – mas essas refletidas a partir de gestos de coragem e imenso altruísmo

Dias depois de chegar no país, ele respondeu a perguntas da seção Perfil do blog do Uni:

Você já está no Haiti há alguns dias. Como foi a chegada e as primeiras impressões até agora?

A impressão inicial, e para sempre, é a de desigualdade social que reina no mundo e que precisa mudar. Da desolação de um povo que vive uma realidade que só vendo para crer. A pobreza é de doer, incomoda. Mas ficou marcado na mente a desolação do terremoto, o poder da natureza. Não há descrição capaz de mostrar o que é a devastação do terremoto…

Km por Km de destruição, como se tudo fosse “um grande castelo de areia” que você põe numa ventania. Dói e da medo, muito medo. Somos um nada… Por mais que achamos que sejamos, com nosso carros, construções, tecnológia etc. SOMOS UM NADA!

A propósito, o que lhe motivou a viajar ao país e atuar como voluntário? Anteriormente já havia participado de situações semelhantes, em outros países ou mesmo no Brasil?

Tenho trabalhado como voluntário há anos, seja em serviços menores, em hospitais filantrópicos… Trabalho num ambulatório da Arquidiocese do Brasil como médico angiologista há quase cinco anos. Atendo pessoas carentes, pobres. Tenho feito ainda um trabalho com a indústria farmacêutica e conseguido angariar doações diversas para todos.

Anuncio o trabalho benevolente com prazer. Enquanto alguns “vendem notícias tristes, eu vendo ações boas”, por isso não tenho receio de dizer: Eu sou um médico que gosta de ajudar o pobre, o mais necessitado.
Mas minha vinda ao Haiti foi fruto de uma vontade interna que surgiu no dia do terremoto. Senti uma necessidade imensa de vim até aqui, e me voluntariei na AMB e afins. Insisti até conseguir, GRAÇAS A DEUS.

No período anterior ao terremoto de janeiro, a visão midiática do país se resumia à cobertura de conflitos sócio-políticos. Há contra-pontos à esta visão? O que de bom você percebeu no país neste curto período de tempo?

Para ser sincero já ouvi algumas pessoa falarem que “foi bom para o Haiti o terremoto, porque agora o mundo os enxerga”. Posso até estar enganado, mas não vejo assim. Milhares de pessoas morreram, centenas de milhares estão aleijadas, mutiladas, entrevadas e ainda irão morrer. Qual é a vantagem disse, pergunto.

“Castigos não são desígnios de Deus, mas podem servir como alertas”. Para mim a outra mensagem: que não somos nada, que do dia para a noite, numa fração de segundo, o rico, o pobre, o branco, o negro, o soberbo, o humilhado, enfim, todos poderão estar na mesma situação, na mesma dependência da solidariedade humana. Qual seria, indago, a diferença de um terremoto destruir 90% do Haiti, da Europa, da América do Norte ou de um pais miserável. O mundo precisa refletir melhor sobre o mundo.

No ponto de vista educacional, sobretudo relacionado à docência do curso de Medicina, como a experiência do voluntariado pode contribuir com a formação e o aperfeiçoamento pessoal?

Quero que os meus alunos saibam que o profissional da saúde, particularmente o médico, tem o direito de ter conforto, receber um ótimo salário, ter família, enfim, ter tudo aquilo que qualquer profissional honesto, esforçado e dedicado mereça. Mas acima de tudo, A VIDA É UM DOM e irão existir inúmeras situações, sejam elas no Brasil, fora dele, no consultório etc, que não se pode pensar em conforto, em bom salário e até mesmo na família (com parcimônia, é claro). Que temos a obrigação de fazermos aquilo que todo médico tem o dever de fazer: ajudar o próximo, sem distinção, sem ter absolutamente nada em troca para receber além de um “obrigado”, um sorriso, um aperto de mão ou abraço.

Aqui no Haiti tenho recebido abraços, sorrisos e olhares de negros que não possuíam os mesmos padrões de banho, de higiene e de educação previamente ao terremoto e que após o mesmo se deterioram por completo, muito mais VERDADEIROS de muitos que recebi no Brasil. E para ser sincero, tenho feito muito trabalho benevolente, mas o VERDADEIRO OBRIGADO é diferente.

Uma mensagem aos leitores do Blog do Uni.

FAÇA O BEM, SEM SABER A QUEM, SEM QUERER NADA EM TROCA, “APENAS FAÇA O BEM”. Ninguém precisa ser “santo ou perfeito” para isso. Alias, Deus não espera que sejamos igual a Ele, mas que acreditemos Nele.

2 comentários para:
Perfil: Ricardo Costaval e o voluntariado no Haiti

  • Wanda de Paula Mourthé disse:

    Ricardo: Num mundo cada vez mais movido pelo poder do dinheiro , pela filosofia americana do “Time is money”, é uma alegria e um conforto ver o altruísmo de um médico bem-sucedido como você priorizando, sem retorno algum (a não ser, claro, a satisfação do dever cumprido), o auxílio aos irmãos carentes, mesmo em condições dificílimas advindas da tragédia haitiana.
    Que Deus o proteja!
    Wanda de Paula Mourthé
    Wanda de Paula Mourthé

  • Wanda de Paula Mourthé disse:

    Ricardo: Num mundo cada vez mais movido pelo poder do dinheiro , pela filosofia americana do “Time is money”, é uma alegria e um conforto ver o altruísmo de um médico bem-sucedido como você priorizando, sem retorno algum (a não ser, claro, a satisfação do dever cumprido), o auxílio aos irmãos carentes, mesmo em condições dificílimas advindas da tragédia haitiana. Que Deus o proteja!
    Wanda de Paula Mourthé

  • * Campos Obrigatórios

Posts relacionados